“Então, em
resposta ao Senhor, Jó disse:
Bem sei que tudo
podes. Que nenhum de teus planos podem ser frustrados. Quem é aquele, que por
mais ciência que tenha, pode a ti ensinar a sabedoria?
(...)
(...)
Falei de
coisas que não compreendia, pois, só te conhecia por ouvir falar.
E agora, que meus
olhos te veem, me reduzo ao pó, e me envergonho diante tua Presença”
(Livro de Jó, capítulo 42, versículos: 01,02,03,05 e 06)
Durante muito tempo, essa passagem bíblica me tocou de forma profunda e real. Não conseguia entender o motivo, mas achava essa reflexão dialógica muito poética e intrigante.
Sabe, querida, hoje em dia entendo, não só o corpus textual desse personagem, que perde tudo, inclusive, a esposa, mas o vazio que experimenta, quando “lhe cai a ficha,” e este até por Deus se sente abandonado (mesmo sendo, segundo a Bíblia, puro aos olhos de Deus e aos meus, como leitor do narrativa, "inocente.").
Por isso o amaldiçoamento do dia que nasceu, de tamanho vazio e dor que enfrenta Jó!
A sua ausência, mesmo consciente de que a carrego comigo, é o que mais me desnorteia neste mundo já tão incoeso...
Tive tudo o que me foi programado pra ter...
tive família,
amigos mais chegados que irmãos, amores, sentido...
Busquei fazer tudo o certo, tudo o justo e mesmo sabendo da Onisciência de Deus, do futuro, e acreditando de forma ateia que Ele programou tudo e sabia que tudo isso eu seria hoje – embora, contraditoriamente não sou nada além de nada – Ele achou que você deveria ir, contra a nossa vontade.
Não irei blasfemar. Pode ter sido fatalidade mesmo, ou descuido.
Me tornei um adulto com a personalidade deformada, com a alma mutilada, fragmentada, com um sentimento terrível de abandono, mesmo sabendo que foi sem querer... que foi o tempo que errou e te colheu muito antes....
Sabia que até hoje não tenho coragem de ir ao Rio de Janeiro porque foi lá que tudo aconteceu e foi lá que meu primeiro e maior navio naufragou em meu cais?
Sabia que até hoje procuro por algo que não faço ideia de como é?
E qual culpa eu tinha quando você foi embora?
Não sabia nem se chovia...
Sabe, meu anjo, ultimamente, tenho dito pra mim mesmo, pra auto-consolar, que as pessoas não morrem.
A proposta de Deus é pela Vida.
A essência dessas pessoas que se foram, fica conosco pela eternidade, esperando o momento de reencontrar... e é verdade! Carrego sua essência até hoje... São os cabelos, o nariz,
a saudade...
coisas tão nossas!
Eu não sei o que sentir...
Nem o que pensar.
Apenas coloco uma música que me aproxima de você e logo sinto-a bem perto...daí, é só me deitar em teu colo e contar todo o bicho papão que me persegue... todas as angústias e medos. Todos os equívocos e duros aprendizados.
E dormir...
E Esperar pacientemente o próximo encontro.
O próximo momento em que iremos nos ver...
Júlio César Maia
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