I EPÍSTOLA À ANA LÚCIA MAIA

“Então, em resposta ao Senhor, Jó disse:
Bem sei que tudo podes. Que nenhum de teus planos podem ser frustrados. Quem é aquele, que por mais ciência que tenha, pode a ti ensinar a sabedoria?
                                                 (...)
 Falei de coisas que não compreendia, pois, só te conhecia por ouvir falar.
E agora, que meus olhos te veem, me reduzo ao pó, e me envergonho diante tua Presença”

(Livro de Jó, capítulo 42, versículos: 01,02,03,05 e 06)


Durante muito tempo, essa passagem bíblica me tocou de forma profunda e real. Não conseguia entender o motivo, mas achava essa reflexão dialógica muito poética e intrigante.

Sabe, querida, hoje em dia entendo, não só o corpus textual desse personagem, que perde tudo, inclusive, a esposa, mas o vazio que experimenta, quando “lhe cai a ficha,” e este até por Deus se sente abandonado (mesmo sendo, segundo a Bíblia, puro aos olhos de Deus e aos meus, como leitor do narrativa, "inocente.").

Por isso o amaldiçoamento do dia que nasceu, de tamanho vazio e dor que enfrenta Jó!

A sua ausência, mesmo consciente de que a carrego comigo, é o que mais me desnorteia neste mundo já tão incoeso...

Tive tudo o que me foi programado pra ter...
tive família, amigos mais chegados que irmãos, amores, sentido...

Busquei fazer tudo o certo, tudo o justo e mesmo sabendo da Onisciência de Deus, do futuro, e acreditando de forma ateia que Ele programou tudo e sabia que tudo isso eu seria hoje – embora, contraditoriamente não sou nada além de nada – Ele achou que você deveria ir, contra a nossa vontade.

Não irei blasfemar. Pode ter sido fatalidade mesmo, ou descuido.

Me tornei um adulto com a personalidade deformada, com a alma mutilada, fragmentada, com um sentimento terrível de abandono, mesmo sabendo que foi sem querer... que foi o tempo que errou e te colheu muito antes....

Sabia que até hoje não tenho coragem de ir ao Rio de  Janeiro porque foi lá que tudo aconteceu e foi lá que meu primeiro e maior navio naufragou em meu cais?

Sabia que até hoje procuro por algo que não faço ideia de como é?

E qual culpa  eu tinha quando você foi embora?

Não sabia nem se chovia...

Sabe, meu anjo, ultimamente, tenho dito pra mim mesmo, pra  auto-consolar, que as pessoas não morrem.

A proposta de Deus é pela Vida.

A essência dessas pessoas que se foram, fica conosco pela eternidade, esperando o momento de reencontrar... e é verdade! Carrego sua essência até hoje... São os cabelos, o nariz, 

a saudade...

coisas tão nossas!

Eu não sei o que sentir...

Nem o que pensar. 

Apenas coloco uma música que me aproxima de você e logo sinto-a bem perto...daí, é só me deitar em teu colo e contar todo o bicho papão que me persegue... todas as angústias e medos. Todos os equívocos e duros aprendizados. 

E dormir...

E Esperar pacientemente o próximo encontro.
O próximo momento em que iremos nos ver...

Júlio César Maia


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